A Campanha da Fraternidade de 2017

A Campanha da Fraternidade de 2017 tem um tema que é essencialmente ecológico: “Fraternidade: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida.” O lema fundamentado na Sagrada Escritura é um mandamento, uma ordem do Criador: “Cultivar e guardar a criação.” (Gn 2,15).

Deus criou o jardim por amor. O homem criou o deserto por ganância. Há uma rapidez na destruição da natureza e um lentidão na sua recuperação. Biomas são regiões, um conjunto de vida vegetal, animal, climática e bacias hidrográficas. Tudo está interligado. No Brasil temos seis regiões (biomas), saber: a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal e o Pampa. Todas as regiões estão sendo depredadas, saqueadas, destruídas. O homem que devia ser cuidador da nossa casa comum, tornou-se destruidor. Devia ser um “homem sábio”, mas devasta tudo, comportando-se como um “homem demente.”

A Campanha da Fraternidade vem mais uma vez nos alertar, nos advertir, nos conscientizar do perigo e das consequências maléficas do “pecado cósmico”. Já ensinava Paulo Apóstolo que “a criação geme e sofre dores de parto” (Rm 8,22). O Papa Francisco, profeta de nossos tempos, dirige-se a cada pessoa que habita no Planeta Terra e clama por uma “conversão ecológica, uma cultura ambiental e uma espiritualidade defensora da natureza.” A terra transformou-se num “depósito de lixo”, diz o Papa, e lamenta que muita gente ainda tenha atitude de indiferença, desinteresse, resignação, diante de tanta destruição.

Ainda é tempo de salvar a Terra. O ser humano tem capacidade de mudar. Sim é urgente mudar a mentalidade das pessoas, corrigir o atual estilo de vida e decidir por um desenvolvimento integral que não seja destruidor, mas, sustentável.

No texto-base da CF há uma referência ao rio Paraíba do Sul, no qual foi pescada a imagem da Mãe Aparecida e que Santo Antonio de Santana Galvão chamava de rio santo. Nosso rio precisa ser despoluído e revitalizado. Para isso é preciso saneamento básico.

A Campanha da Fraternidade de 2017 pelo Brasil, suas atividade, encontros e decoração

E agora, o que fazer?

Primeiro, vamos ler e divulgar o texto-base. A gente aprende muito lendo este livrinho. Ofereça sementes para as crianças plantar; adquira mudas de árvores e plante-as; não desperdicemos água, luz e procuremos usar menos o automóvel. Usemos o transporte público, andemos de bicicleta e a pé. Façamos como muitas paróquias estão fazendo: mutirão de coleta de lixo e educação ecológica para o povo. É pecado deixar água estagnada porque vamos morrer picados pelo mosquito da dengue, zika, chicunguya, febre amarela. Gestos pequenos trazem grandes resultados. É melhor agir do que lamentar ou angustiar-se. Somos todos irmãos. Cuidemos da nossa casa comum.
Todo nosso cuidado com a natureza tem seu fundamento no amor do Criador. Ele está presente em todo o Universo e na mais pequenina das criaturas. Deus está num grão de areia. Tudo o que existe é sinal da providência, da sabedoria, da beleza, do amor de Deus: “o amor move o sol e as demais estrelas” (Dante A.)

Cuidar da criação é um ato de amor fraterno e social. Zelemos pela vida humana, pelas futuras gerações, pela casa de todos. Vamos sim proteger os ovos de tartaruga que estão sendo destruídos, mas vamos cuidar do embrião humano, desde a fecundação e cuidar dos pobres. Eis o que significa “ecologia humana”. No amor ecológico, está o amor a Deus e ao próximo.

O Meio Ambiente está cheio de chagas causadas pelo sistema econômico mundial e os modelos de crescimento. A conversão ecológica consiste em passar do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à partilha. Não estamos sozinhos, somos uma família na terra.

São Francisco, padroeiro da ecologia, amou os pobres e deu atenção às criaturas. Vivia em harmonia com Deus, com o próximo, com a natureza e consigo mesmo. Mostrou que é inseparável o amor pela criação, a justiça com os pobres, o amor a Deus, a paz interior e o empenho pela sociedade. Ou mudamos, ou pereceremos. Vamos mudar, pois o sistema atual é insustentável. Vida sim, morte não!

 

CNBB
Dom Orlando Brandes

Arcebispo de Aparecida (SP)
Adaptação, ilustração e revisão
Portal Kairós

Carnaval e Quaresma: um novo modo de viver e proceder

O carnaval, que surgiu em função da quaresma, assinalava que estava chegando o tempo que iria conduzir à celebração da Páscoa

Nestes dias de carnaval, que pode ser vivido de diversas maneiras, começamos a preparação rumo à Páscoa. Muitos jovens, incluindo suas famílias, promovem nestes dias uma verdadeira cultura da paz, com músicas, teatro e confraternização. Há quem faça opção pelo retiro, com momentos de oração, revisão de vida e espiritualidade, buscando um novo sentido para suas vidas, através de uma experiência de Deus, profunda e transformadora.

Carnaval e Quaresma

Cartaz da CF 2017 no estilo Early Autumn, simbolizando as cores do Carnaval

O carnaval, que surgiu em função da quaresma, assinalava que estava chegando o tempo que iria conduzir à celebração da Páscoa. Hoje, apesar do contraste com a quaresma, devido aos exageros e abusos do carnaval, convergem no seu significado e se integram quando realizados com discernimento.

Quando terminar os dias de Carnaval, iniciaremos o tempo da Quaresma com a imposição das cinzas sobre nossas cabeças: “convertei-vos e crede no Evangelho” (1º de março). Palavras que indicam um inteiro programa de vida: através da prática do jejum, abstinência, penitência, confissão, participação na liturgia, oração, reuniões de grupos, vivencia na comunidade, leitura da Palavra de Deus, caminhamos ao encontro do Cristo pascal e retomamos com entusiasmo a vida cristã.

Durante a Quaresma realizamos a Campanha da Fraternidade que, ao longo dos anos, tem refletido sobre a vida em todas as suas dimensões e levantado questões que necessitam de maior discernimento. Os temas da CF sempre tocam em assuntos sociais, convidando todos os cristãos e a sociedade em geral para uma séria reflexão sobre o tema e um empenho maior em favor da solidariedade e de realidades mais justas e fraternas ao propor que haja conversão pessoal e social para enfrentar os desafios sociais, econômicos, culturais e até mesmo religiosos. A partir de cada CF, os católicos e pessoas de boa vontade são convidados a refletir e agir para transformar a sociedade.

A Campanha deste ano retoma os temas ecológicos anteriores e tem por objetivo “cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”. Com o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15), a CF 2017 pretende à luz da fé, refletir sobre o significado dos desafios apresentados pela situação atual dos biomas e dos povos que neles vivem, abordando as principais iniciativas já existentes para a manutenção de nossa riqueza natural básica e apresentando propostas sobre o que devemos fazer em respeito à criação que Deus nos deu para cultivá-la e guardá-la.

O Brasil tem seis biomas (conjuntos de ecossistemas numa mesma região com semelhantes características e processos de formação): Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga e Pampa, que sofrem interferências negativas desde os primeiros colonizadores ao Brasil, que utilizaram a mão de obra escrava indígena e africana para explorar, extrair, dilapidar as riquezas naturais.

Hoje, com uma população de mais de 200 milhões de brasileiros, sendo mais de 160 milhões vivendo em cidades, o país sofre o impacto dessa concentração populacional sobre o meio ambiente produzindo problemas que põem em risco as riquezas dos biomas brasileiros (TB/CF 2017).

Vivemos no maior bioma do Brasil, a Amazônia, que ocupa 61% do território nacional e abriga mais da metade de todas as espécies vivas do país, possui a maior bacia hidrográfica de água doce do mundo. 80% de sua população vivem nas áreas urbanas, sem saneamento básico e outros direitos básicos.

Os conflitos e a violência contra os trabalhadores do campo se concentram de forma expressiva na Amazônia, para onde avança o capital tanto nacional como internacional. O manejo florestal passou a ser uma atividade na qual foram inúmeras as denúncias de trabalho escravo.

A expropriação privada de grandes áreas de terra continua sendo a principal causa de desmatamento. A pecuária é a principal atividade implantada nas áreas recentemente desmatadas. A construção de grandes hidrelétricas e atividades de mineração são responsáveis por boa parte dos danos ambientais e sociais nas comunidades.

O problema fundamental da Amazônia é o modelo de desenvolvimento adotado para a região. A disputa pelas riquezas faz com que a legislação flutue conforme os interesses das corporações econômicas que atuam na região. A concentração urbana indica que a vida na floresta muitas vezes é inviabilizada para as populações originárias e tradicionais. Todas as lutas indígenas, de ribeirinhos e quilombolas são sempre para manter seus territórios. Porém, mesmo contra a corrente do modelo, é graças a essas populações que ainda temos grande parte da floresta em pé.

O Texto Base da CF 2017 nos permite refletir sobre os biomas e os povos originários à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. A partir da fé cristã, podemos contribuir com as questões da ecologia integral, sobretudo, na convivência harmônica com os nossos biomas. Como afirma o Papa Francisco: “as convicções da fé (nos) oferecem motivações importantes para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis” (LS 64).

As ações propostas nesta Campanha da Fraternidade estão em sintonia com a Doutrina Social da Igreja, com a encíclica Laudato Si e com a CFE de 2016. Elas indicam a necessidade da conversão pessoal e social, dos cristãos e não cristãos, para cultivar e cuidar da criação.

Nesta Quaresma, somos chamados, a partir de nosso bioma e dos povos originários que aqui habitam, a descobrir quais ações são possíveis e, entre elas quais são as mais importantes e de impacto mais positivo e duradouro. Para o Papa Francisco, é devido à atividade humana que o planeta continua a aquecer. Este aquecimento provoca mudanças climáticas que geram a dolorosa crise dos migrantes forçados. Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos.

A liturgia de hoje supõe uma consciência filial com relação a Deus (Sl 102) e com aqueles que são insignificantes e marginalizados, um amor que serve de critério para ver se a nossa vida é compatível com a companhia de Deus, nosso Pai. As leituras sugerem exemplos concretos para que o comportamento de Deus se torne a regra de nosso agir.

O Livro do Levítico insiste na prática da justiça e caridade nas relações sociais; o apelo de Moisés “Sede santos, porque eu o Senhor, vosso Deus, sou santo” é um convite a imitar a santidade divina. Ensina-nos a agir como Deus age e nos leva a descobrir o próximo naquele que precisa de nossa ajuda (Lv 19,1-2.17-18).

No domingo passado, celebramos a justiça do Reino, proclamada por Jesus, como cumprimento da verda­deira lei; hoje, aprendemos com Jesus o modo como cumprir essa lei, que segue por caminhos contrários a tudo o que o mundo espera. O Evangelho abre a perspectiva do relacionamento humano para além das fronteiras que se costumam construir (Mt 5, 38-48).

À lei da vingança Jesus propõe a não vingança, a não violência. Diante do ódio, do rancor ou da raiva que podemos sentir, Jesus está nos convidando a um novo modo de proceder: não alimentar vingança, não manter o rancor e responder às ofensas recebidas de uma forma totalmente diferente de uma justiça aparentemente “justa”.

No mundo reina divisão entre nações, religiões, classes sociais; até na Igreja ricos e pobres vivem separados. Onde existe esse amor ao inimigo que Jesus ensina? O ser humano realiza sua vocação de ser semelhante a Deus, quando ama a todos com o amor gratuito de Deus, sem procurar qualquer compensação (Konings). Papa Francisco reforça: amemos aqueles que nos são hostis; abençoemos quem fala mal de nós; saudemos com um sorriso a quem talvez não o mereça; não aspiremos a fazer–nos valer, mas oponhamos a mansidão à prepotência; esqueçamos as humilhações sofridas; deixemo-nos guiar sempre pelo Espírito de Cristo: Ele sacrificou-Se a Si próprio na cruz, para podermos ser “canais” por onde passa a sua caridade.

Paulo Apóstolo instrui qual deve ser nosso modo de viver: ser santuários nos quais habita Deus (1Cor 3,16-23). Nós, seguidores do Cristo, aprendemos com ele a ser também habitação divina, casa da santidade, porque vivemos no amor.

 

Dom Moacyr Grechi
ariquemesonline.com.br

Motivos para promover a Campanha da Fraternidade

Com o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15)” , a Campanha da Fraternidade 2017 traz uma reflexão sobre meio ambiente e sugere uma visão global das expressões da vida e dos dons da criação.

O texto base da CF 2017 indica o termo “biomas” como a vida que se manifesta em um conjunto semelhante de vegetação, água, superfície e animais. O assunto tem bastante relevância no Brasil. Por isso, listamos 5 bons motivos para que você promova a CF 2017 e se aprofunde no tema. Confira:

01. Assumir a vida e suas expressões de modo objetivo e concreto. Muitas vezes, quando ouvimos falar sobre o cuidado com o meio ambiente, corremos o risco de achar que esta realidade está distante de nós. Promover a Campanha da Fraternidade 2017 abrirá nossos horizontes para assumirmos, com amor e responsabilidade, tudo que foi criado por Deus.

02. Viver intensamente a quaresma. Ao mergulharmos neste intenso tempo de oração e conversão, somos convidados a crescer na experiência da admiração, contemplação e cultivo da obra criada por Deus. Quando aderimos à CF 2017, podemos tornar o nosso itinerário quaresmal mais concreto, trazendo para nossa vida o cuidado com as pessoas e com o mundo em que vivemos.

03. Comprometer autoridades públicas na responsabilidade com o meio ambiente. Cada um de nós, à medida que se envolve no cuidado com as questões ambientais, naturalmente percebe que este caminho precisa ser abraçado por todos, inclusive na esfera das políticas públicas. Comprometer as autoridades nesta causa pode ser uma excelente resposta de caridade à humanidade e ao planeta.

04. Participar da construção de um mundo novo. Sob a inspiração da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, podemos amadurecer nossa compreensão de que cultivar e guardar a criação não se trata apenas de questões ecológicas, mas de um olhar integral sobre a vida humana, sobre o presente e o futuro que esperamos ter. “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?”(Laudato Si, 160).

05. Cultivar as virtudes. Um dos documentos que fundamenta o texto base da Campanha da Fraternidade 2017 é a encíclica Caritas in Veritate (Caridade na verdade), do Papa Emérito Bento XVI. “O amor — caritas — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, amor eterno e verdade absoluta” (Caritas in Veritate,1). A promoção da CF 2017 pode nos fazer crescer nas virtudes da fé, esperança e caridade para darmos uma resposta abundante e fecunda ao mundo de hoje.

A Campanha da Fraternidade terá início no dia 01 de março de 2017.
Até lá, procure conhecer mais sobre o assunto.
Aproveite e compartilhe este post nas redes sociais e ajude outras pessoas a refletirem este tema.

Promover a Campanha da Fraternidade

 

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O desafio de despertar a consciência coletiva durante a CF 2017

Com o tema ‘Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida’ e o lema ‘Cultivar e guardar a criação’ a Campanha de 2017, sublinha a urgência do despertar de cada pessoa, para uma consciência coletiva ambiental e uma conversão pessoal e comunitária.

O desafio de despertar a consciência coletiva durante a CF 2017

Ampliando e motivando uma tomada de conscientização sobre as ações direcionadas ao meio ambiente, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) traz a reflexão sobre os biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal) na Campanha da Fraternidade desse ano.

“…as pessoas contemplem o meio ambiente de uma forma mais cristã”.

“O grande desafio da Campanha da Fraternidade 2017, como em todos os anos, é a formação da consciência de modo que as pessoas contemplem o meio ambiente de uma forma mais cristã”, enfatiza o assessor da Campanha da Fraternidade da sub-região pastoral de Aparecida (SP), padre Leandro Alves de Souza.

O sacerdote cita o livro de Génesis que fala da criação do mundo, dando o exemplo do limite colocado por Deus ao proibir o homem de comer o fruto da árvore, explicando que “o ser humano não é capaz de perceber se as suas ações são boas ou ruins, precisando de fato da luz de Deus”.

Como base nisso, a Igreja vê a necessidade de refletir cada vez mais a importância do pensamento coletivo, de uma responsabilidade assumida verdadeiramente com respeito ao próximo e à natureza, como princípios de um bom cristão.

“Um outro grande desafio é esse individualismos acentuado que a gente vive. Vimos há alguns anos essa a crise hídrica enfrentada no estado de São Paulo. E ficou claro que muitas pessoas só tomavam consciência do problema se abrissem a torneira e não caísse um pingo d’água. A gente continuou vendo o desperdício, atitudes totalmente irresponsáveis. Então na verdade o grande desafio nosso é despertar essa consciência coletiva”, expressou padre Leandro.

Para contribuir na formação das pessoas e incentivar ações que favoreçam o meio ambiente e as gerações futuras, a CNBB preparou uma série de atividades como via-sacra, círculo bíblico, temas para reflexões em família e celebração penitencial. Padre Leandro aponta que essas reflexões são urgentes e necessárias e deixa uma pergunta, que em sua opinião, deveria nortear as atitudes de cada pessoa:

“Qual o mundo ou qual o meio ambiente entregaremos para os filhos, para os netos, para as gerações futuras?”

“Até quando o ser humano vai tratar a natureza simplesmente com objeto de lucro…?
Padre Leandro levanta um questionamento preocupante: “Até quando o ser humano vai tratar a natureza simplesmente com objeto de lucro, manipulando-a cada vez mais, sem pensar nas consequências futuras?”.

Ele destaca alguns gestos concretos que podem motivar a política pública a criar ações que promovam um meio ambiente sustentável como incentivar projetos de lei que proíbam, por exemplo, o uso de agrotóxicos, cobrar dos políticos atenção aos malefícios que as queimadas e a poluição urbana provocam e incentivar a participação dos leigos e leigas nos conselhos paritários, como o Conselho Municipal do Meio Ambiente.

O assessor da Campanha da Fraternidade sugere que durante a Quaresma, que se que inicia na Quarta-feira de Cinzas (1 de março), os cristãos busquem viver a experiência de uma espiritualidade franciscana, de modo que se torne uma atitude comum e concreta para a vida.

“São Francisco, o grande defensor do meio ambiente, nos ensina com a sua vida e com seus escritos que a natureza não pode ser manipulada muito menos tratada como objeto de lucro, pelo contrário, a natureza é a nossa irmã, o bioma faz parte do nosso relacionamento fraterno”, concluiu padre Leandro.

 

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Entrevista com coordenador de pastoral sobre a CF 2017

Coordenador arquidiocesano de pastoral fala sobre a Campanha da Fraternidade 2017

A Campanha da Fraternidade (CF) 2017 terá como tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15). Em entrevista o coordenador arquidiocesano de pastoral, padre Geraldo Martins, fala sobre a importância da CF e sobre a sua realidade na Arquidiocese.

Arquidiocese de Mariana

Como o tema “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema “Cultivar e guardar a criação” serão trabalhados nas regiões diocesanas?

Padre Geraldo: É comum as regiões oferecerem encontros de formação para as lideranças das paróquias que as compõem. Nesse encontro, discutem-se também ações concretas que as comunidades podem realizar na vivência do tema da Campanha da Fraternidade. Os agentes que participam desta formação nas regiões tornam-se multiplicadores e animadores da Campanha em suas respectivas paróquias. Em nossa arquidiocese, os Roteiros para os Grupos de Reflexão prestam relevante serviço ao abordar o tema da CF, ajudando, assim, nossas comunidades a tomarem consciência de seu conteúdo.

Como esse tema e lema se enquadram na realidade da Arquidiocese?

Padre Geraldo: Em primeiro lugar, o tema nos ajuda a compreender o que são biomas e sua importância no nosso ecossistema. Em segundo lugar, vai nos levar a descobrir qual é o bioma de nossa região, como ele é considerado pela população e quais as implicações que ele provoca em nossa vida. Além disso, o tema e o lema, numa linha de continuidade com as campanhas anteriores, provocam-nos em nosso compromisso na defesa de toda a criação, preservando o meio ambiente na direção da “ecologia integral”, como nos ensina o papa Francisco.

Quais ações serão propostas para a Arquidiocese na realização da Campanha da Fraternidade 2017?

Padre Geraldo: A Arquidiocese não possui uma equipe que se encarrega pela dinamização da Campanha da Fraternidade em nível arquidiocesano. Isso é feito nas Regiões Pastorais que animam as paróquias e comunidades a colocarem em prática as sugestões apresentadas pelo Texto Base da CF, além de outras que surgem de acordo com a nossa realidade. Daí a importância de identificarmos bem o bioma no qual vivemos. A Arquidiocese incentiva de maneira forte o empenho das comunidades na Coleta da Solidariedade que, a cada ano, tem mostrado um resultado muito positivo. No ano passado, por exemplo, a Coleta na Arquidiocese somou cerca de R$ 130 mil.

Haverá processo de formação próprio da Arquidiocese ou será a ser seguido o modelo nacional? De que maneira?

Padre Geraldo: Como disse acima, a formação se dá nas Regiões e nas paróquias a partir do material oferecido pela CNBB como o texto-base e o DVD, além de outros materiais produzidos por grupos distintos. Para as escolas, grupos de jovens e de famílias também são oferecidos materiais próprios. Tudo isso favorece a ampliação da reflexão e o alcance do debate do tema que não é exclusivo dos católicos, mas diz respeito a toda a sociedade. Em nível arquidiocesano, são oferecidos os Roteiros de Reflexão que aprofundam o tema a partir do texto-base da CF publicado pela CNBB.

Quais as reflexões a se fazer a cerca do texto base da campanha, na qual a proposta principal é a diversidade de cada bioma e as relações da vida e cultura de todos os povos?

Padre Geraldo: O esforço será o de alcançar o objetivo da CF que é despertar nas pessoas a responsabilidade pelo cuidado com a criação e com a vida e a cultura dos povos, claro, sempre iluminados pelo evangelho. O texto-base da CF funciona como uma lanterna que joga luz a iluminar nossos caminhos num tema que nem sempre dominamos que é a questão dos biomas. A maioria de nós não tem ideia de quantos e quais são esses biomas, tampouco conhecemos sua história e como deve ser nossa relação com eles na perspectiva de sua preservação para a promoção da vida em todas as suas expressões. Daí, também, a importância de sabermos a relação que eles têm com as culturas de nossos povos. Ao fazer a leitura da realidade a partir do tema abordado, iluminando-a com a Palavra de Deus e da Igreja, o texto base desperta-nos para nosso compromisso cristão de trabalhar por uma sociedade justa e fraterna. Mostra-nos que não é possível dissociar a fé da vida.

Pensando nas contribuições eclesiais de cada bioma e as perspectivas de São João Paulo II, Bento XVI e o Papa Francisco, principalmente por meio dos conhecimentos adquiridos pela leitura do texto da “Laudato Si”, qual a expectativa para a realização dessa campanha no próximo ano?

Padre Geraldo: Vivemos um momento delicado em nosso país, com uma crise política e econômica que parece não ter fim. A ideia de um desenvolvimento a todo custo, desligado do respeito à vida humana e à vida do planeta, desafia-nos a todo instante. Algumas reformas propostas pelo atual governo incidem diretamente em questões ligadas ao tema da Campanha da Fraternidade como é o decreto presidencial que estabelece novas regras para demarcação e homologação de terras indígenas. Diante disso, a expectativa é que a CF ajude a população brasileira a ter um olhar mais crítico para as propostas que defendem um desenvolvimento que sacrifica o meio ambiente, desrespeita a vida e idolatra o dinheiro, o mercado e o lucro. Nada pode se sobrepor à vida e à dignidade humana.

Considerando o vasto território da Arquidiocese de Mariana, quais os principais desafios enfrentados ao lidar com as diversidades dos biomas?

Padre Geraldo: Os desafios são muitos e se multiplicam de acordo com cada região. Em áreas de minério, por exemplo, o desafio é fazer a população perceber o ônus que recai sobre seus ombros a partir da exploração do minério pelas grandes empresas. A degradação do meio ambiente, a ameaça às comunidades próximas destas áreas e o lucro exorbitante das mineradoras precisam estar sempre na pauta de discussão dos que só têm olhos para ver o “bônus” gerado pelas empresas. Ainda que existam bônus, a quem eles mais favorecem e a que preço? Esta pergunta que precisa ser feita permanentemente. Em regiões mais agrícolas, temos o desafio do uso do agrotóxico cujas consequências danosas, sobretudo, à vida humana são difíceis de medir. Há, ainda, o problema do desmatamento, das queimadas, da escassez de água, da monocultura. Tudo isso está ligado à questão dos biomas e, às vezes, a gente nem se dá conta. Por isso, é importante recordar o papa Francisco ao afirmar que nós, os seres humanos, “não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas”. Esta, talvez, seja a grande lição proposta pela CF-2017: tomar consciência da interdependência entre as criaturas como lembra o Catecismo da Igreja Católica no número 2418.

Para a Arquidiocese, a Campanha de 2017 segue o contexto relacionado ao meio ambiente e consequentemente reforça o cuidado com o Rio Doce e as áreas afetadas pelo rompimento da barragem. Como o senhor vê a importância dessa discussão?

Padre Geraldo: A preocupação com a preservação do meio ambiente já era discutida na província eclesiástica de Mariana (composta pelas dioceses de Mariana, Itabira/Coronel Fabriciano, Governador Valadares e Caratinga) antes mesmo do crime ambiental provocado pelo rompimento da barragem de Fundão. O rastro de destruição deixado pela atividade mineradora em nossa região obriga a Igreja a posicionar-se de forma profética em defesa dos que mais sofrem com isso. A CF-2017 fortalece nossa reflexão e inspira nossas ações na direção de combater tudo aquilo que signifique ameaça ao meio ambiente, à vida e à dignidade humana. O desastre tecnológico, como alguns têm chamado o rompimento da barragem de Fundão, obriga-nos a definir e cobrar ações que efetivamente recuperem a bacia do Rio Doce e que a preservem de novos crimes como esse. Refletir e viver a CF-2017 sob o cenário do que ocorreu no distrito de Bento Rodrigues, município de Mariana, com consequências ainda incalculáveis ao longo de toda a bacia do Rio Doce, será oportunidade de todos tomarmos consciência de nossa corresponsabilidade política, social e religiosa na promoção e defesa da vida que se manifesta em toda a criação.

 

arqmariana.com.br
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