Susana, Bel e o Dragão: as histórias de Daniel que nem toda Bíblia tem
Aqui vai uma curiosidade que surpreende até quem lê a Bíblia com regularidade: dependendo da edição que você tem em mãos, o livro de Daniel pode ter doze ou catorze capítulos. Se for uma Bíblia católica, os capítulos 13 e 14 estarão lá, contando as histórias de Susana e de Bel e o Dragão. Se for uma Bíblia protestante, esses dois capítulos simplesmente não existem. E se for uma Bíblia judaica, o próprio texto hebraico de Daniel já termina antes desse ponto. O que está por trás dessa diferença, e por que vale a pena conhecer essas histórias mesmo que sua Bíblia não as traga?
Um problema de idioma e de época
A explicação está na história da formação do cânon bíblico. O núcleo do livro de Daniel foi composto em hebraico e aramaico e é reconhecido por todas as tradições. Mas, na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita ainda antes da era cristã e amplamente usada pelos primeiros cristãos), o livro de Daniel circula com capítulos adicionais, escritos ou preservados apenas em grego. A Igreja Católica, seguindo a tradição da Septuaginta e da Vulgata latina, reconhece esses capítulos como parte integrante das Escrituras, classificando-os junto com outros textos de origem semelhante como “deuterocanônicos”, ou seja, pertencentes a um segundo momento de reconhecimento canônico, mas igualmente inspirados. As tradições protestante e judaica, por sua vez, seguem o cânon hebraico mais restrito, que não inclui esse material.
Independentemente de qual tradição alguém segue, essas duas histórias são narrativas ricas, com um valor literário e teológico que merece ser conhecido.
Susana: a inocente diante do tribunal
A história de Susana, no capítulo 13, é um pequeno drama judicial de tensão surpreendente. Susana é uma mulher casada, íntegra e temente a Deus, que é espionada no banho por dois anciãos respeitados, juízes do próprio povo, que a desejam. Quando ela rejeita as investidas dos dois, eles se vingam acusando-a publicamente de adultério, uma acusação que, se comprovada, significava pena de morte. Susana é condenada com base apenas no falso testemunho dos dois anciãos, sem chance real de defesa, porque a palavra deles, como autoridades, pesava mais que a dela.
É nesse ponto que Daniel, ainda jovem, entra na história, intervindo por inspiração divina e interrogando os dois acusadores separadamente. Ao serem questionados individualmente sobre detalhes da cena que teriam testemunhado, eles se contradizem, revelando a mentira. Susana é absolvida, e os falsos acusadores recebem a pena que haviam planejado para ela. É uma narrativa que denuncia com clareza o abuso de poder por parte de autoridades corruptas e reivindica a proteção de quem é injustamente perseguido, uma preocupação com a justiça que atravessa boa parte da tradição bíblica.
Bel e o Dragão: a farsa por trás dos ídolos
O capítulo 14 reúne, na verdade, duas pequenas narrativas com o mesmo alvo: a crítica à idolatria. Na primeira, o rei venera Bel, um ídolo que supostamente consome, todas as noites, grandes quantidades de comida e bebida oferecidas pelos sacerdotes do templo. Daniel suspeita de fraude e, discretamente, espalha cinzas pelo chão do templo antes de ele ser fechado à noite. Na manhã seguinte, as pegadas reveladas nas cinzas provam que eram os próprios sacerdotes, entrando por uma porta secreta junto com suas famílias, que devoravam as oferendas, e não o ídolo de pedra e bronze, incapaz de comer coisa alguma.
Na segunda narrativa, o rei aponta um grande dragão vivo, venerado pelo povo, como prova de que ao menos essa divindade era real, já que “come e bebe” de fato. Daniel, sem usar arma alguma, prepara bolos de piche, gordura e pelos, e os dá ao dragão, que morre ao engoli-los. A resposta de Daniel ao rei resume o espírito de todo o capítulo: “Eis o que vocês adoravam.”
Uma mensagem que continua atual
Por trás do tom quase de fábula dessas narrativas, existe uma mensagem séria e coerente com o restante do livro de Daniel: ídolos, sejam eles estátuas literais ou qualquer outra coisa que ocupe indevidamente o lugar de Deus, não passam de fachadas vazias, sustentadas por interesses humanos e, muitas vezes, por engano deliberado. E a justiça, mesmo quando manipulada por quem detém poder e credibilidade social, não tem a palavra final. Se essas duas histórias não aparecem em toda edição da Bíblia, elas seguem, ainda assim, no mesmo tom de todo o livro de Daniel: a confiança de que a verdade, cedo ou tarde, vem à luz, e de que Deus está ao lado de quem é injustamente perseguido.
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