Canto e música, linguagens para testemunhar o Evangelho

Canto e música, linguagens para testemunhar o Evangelho, diz Papa aos “Alunos do Céu”

Ao superar todas as fronteiras, vocês difundem uma mensagem de paz e de fraternidade, disse o Papa ao receber o grupo de jovens fundado em 1968 “Alunos do Céu”.

O Santo Padre concluiu sua série de audiências na manhã deste sábado (10/11), recebendo na Sala Clementina, no Vaticano, cerca de 300 Membros da Associação “Alunos do Céu”.

Os “Alunos do Céu” são um grupo de jovens, que, desde 1968, anunciam o Evangelho através da música e do canto, com concertos em toda a Itália e Europa. Este ano, a Associação completa 50 anos de fundação.

Em sua saudação à Comunidade “Alunos do Céu”, – pelo seu Jubileu de Ouro e pelo 10º aniversário de morte do seu fundador, Padre Giuseppe Arione, jesuíta, – o Papa falou sobre esta realidade eclesial:

“A sua realidade associativa, composta por dois grupos, ‘Revival’ e ‘Amém’, está inserida no antigo e prestigioso Instituto Social de Turim, cuja finalidade educativa é enriquecida pela experiência espiritual de Santo Inácio de Loyola (fundador da Companhia de Jesus). Com a ajuda do seu Assistente espiritual, vocês se comprometem a testemunhar o Evangelho com música e canto, buscando chegar aos corações de todos, inclusive dos que estão longe da Igreja ou da fé”.

A sua missão, frisou Francisco, se realiza nas pegadas do carisma e do testemunho do Padre Arione. Ao seguir as orientações do Concílio Vaticano II, por uma Igreja em diálogo com o mundo contemporâneo, o fundador opôs-se, em 1968, à atitude de protestos com o acolhimento:

“Ele se dedicou a uma forma de apostolado utilizando a música e o canto como linguagem capaz de transmitir, de maneira universal, a beleza e a força do amor cristão. Ele passava pelos ‘cruzamentos das ruas’, até em lugares antes inexplorados pela Igreja, para se encontrar com os adolescentes e jovens. A todos, sem distinção, dirigia-se, com empatia e benevolência, propondo um caminho de fé e fraternidade, cuja finalidade era evangelizar com a música e cantar o amor de Deus, gerando amizade e partilha fraterna”.

Por isso, o Papa os encorajou a levar adiante o carisma deste generoso jesuíta, renovando-o nas suas formas, mas preservando a sua inspiração profética, válida e atual. Para que isto seja possível, afirmou Francisco, é preciso cuidar da vida interior, sem deixá-la “roubar” pelo barulho mundano, mas cultivá-la por meio da oração pessoal e comunitária, ouvindo a Palavra de Deus, participando dos Sacramentos e, sobretudo, da Confissão e da Eucaristia.

Somente assim, concluiu o Pontífice, suas vozes e suas músicas terão sucesso e serão enriquecidas pelo seu testemunho de vida cristã e a comunhão com Deus, como arautos do Evangelho e artesãos de paz e fraternidade.

Ao final, os “Alunos do Céu” cantaram o Aleluia e “Happy Day”.

 

Manuel Tavares / Portal Kairós

Processos de escuta rumo ao Sínodo 2019 se intensificam

Processos de escuta rumo ao Sínodo 2019 se intensificam, na Região Amazônica, em novembro

Na Região Amazônica, neste mês de novembro, aconteceram vários processos de escuta em preparação ao Sínodo da Amazônia, programada para 2019, cujo tema é: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral”. Nas últimas semanas, aconteceram atividades no Amazonas, em Roraima, no Maranhão, Pará e Amapá. Um deles foi realizado dias 3 e 4/11 na aldeia Tarumã e Juçarau, na terra indígena Arariboia, no município de Amarante (MA).

As movimentações de escutas e assembleias territoriais em vista do Sínodo para a Amazônia continuam ocorrendo em toda a região. No último final de semana, aconteceram atividades no Amazonas, em Roraima, no Pará e no Amapá. Os encontros são voltados para reflexão e resposta ao questionário sobre o tema da assembleia sinodal extraordinária do próximo ano: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Na escuta, realizada pela equipe da Repam-Brasil, o cacique Tomaz da Silva Guajajara, falou da importância da presença da Igreja Católica na aldeia. “Nós índios Guajajara precisamos sim da Igreja Católica retornar o mais rápido possível dentro de nossas terras trazendo projetos, trazendo a Palavra de Deus, construindo Igrejas”, disse.

O cacique citou dois problemas enfrentados por seu povo: a invasão de madeireiros e a atitude de igrejas que chegam ao local e inibem as tradições culturais que a tribo carrega na sua história. “E a Igreja católica nos aceita do jeito que nós somos”, disse.

Durante a escuta, também foram manifestadas preocupações com a casa comum. Os índios guajajara pediram auxílio da Igreja para não deixar “as coisas que Deus fez acabarem”. Também falaram das ameaças sofridas e ressaltaram a dedicação do papa Francisco com a região Amazônica.

Himaíra Guajaraja, parteira indígena, manifestou preocupação com a juventude. Ela pediu que a presença eclesial seja de incentivo aos jovens, que são o futuro: “Queria que incentivasse a participar de reuniões e fazer um pequeno projeto com eles porque está tendo muita droga e bebida alcóolica”, disse.

Na diocese de Imperatriz/MA, à qual pertencem as comunidades de Amarante, há a preparação da Pastoral Indigenista, que deve dar mais atenção à realidade indígena, em sintonia com o Sínodo, que busca para a Amazônia “novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Roraima – Católicos das realidades urbanas, ribeirinhos, indígenas e migrantes estiveram reunidos em Boa Vista (RR) entre nos dias 2 e 4/1, para a Assembleia pré-sinodal Diocesana. A colaboradora Márcia de Oliveira, assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica/Repam-Brasil, compartilhou com o grupo o que foi recolhido nos encontros promovidos na preparação para esta assembleia diocesana. É tempo de identificar os rostos dos povos da Amazônia dentro da Igreja da região. O irmão Danilo Bezerra indica que é tempo de identificar os rostos dos povos da Amazônia dentro da Igreja da região. “Vivemos um tempo de escutar e perguntar sobre qual é o tipo de Igreja queremos na Amazônia?”. Segundo ele, busca-se uma Igreja indígena, ribeirinha e também de pequenos agricultores. O irmão marista destaca a beleza do processo e a força dos gritos e clamores escutados na assembleia. A escuta buscou seguir o método ver, discernir e agir, presente no desenvolvimento de todo o processo sinodal na diocese de Roraima. O método busca gerar compromissos, tanto no nível local, como também propostas para o Sínodo sobre a Pan-amazônia em 2019.

Amazonas – Em Manaus cerca de 100 religiosos salesianos e leigos que atuam nas missões da Congregação, participaram do Encontro Pan-Amazônico Salesiano com o tema: “O Sínodo nos interpela”. Além dos brasileiros, representantes de outros países participaram: Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, México, Paraguai e Colômbia. Também participaram representantes do governo geral da congregação dos Salesianos de Dom Bosco e das Filhas de Maria Auxiliadora. Os salesianos estão há mais de cem anos na região amazônica e hoje contam com cerca de 200 religiosos em 37 comunidades. O padre salesiano Justino Sarmento Rezende é o único indígena que faz parte do Conselho Pré-sinodal. Durante o encontro, provocou seus pares a partir da indicação do papa Francisco “para fazer propostas corajosas”. Padre Justino insistiu que “o Sínodo deve ser realizado para e com o povo de Deus na Amazônia”.

Amapá – No sul do Amapá, onde se encontra o Vale do Jari, foram realizados um encontro e uma Roda de Conversa na preparação do Sínodo para a Amazônia. No sábado, 3/11, em Vitória do Jari e no domingo, 4/11, em Laranjal do Jari. Veramoni Coutinho e Benedito de Queiroz Alcântara, membros da equipe formativa da escola de Fé e Cidadania da diocese de Macapá, partilharam a caminhada que estão realizando por toda a diocese na preparação do Sínodo Especial para a Amazônia. “Lideranças pastorais das duas paróquias acolheram com generosidade e suscitaram inúmeras perguntas a partir do texto-cartilha e das exposições realizadas. O sul do Amapá vai chegar no Encontrão, em Macapá, com toda garra e bons indicativos. Ninguém quer ficar de fora”, enfatizou Benedito.

Pará – O documento preparatório para o Sínodo foi estudado na Comunidade de Surucuá, na Reserva Extrativista Tapajós, que fica a seis horas de barco de Santarém/PA. Indígenas e ribeirinhos apresentaram propostas e tiveram participação “alegre e generosa” no encontro. Já em Castanhal/PA, os catequistas participaram do processo de escuta.

 

CNBB / Portal Kairós

Síndrome nas redes sociais e por que ninguém faz nada?

Síndrome nas redes sociais e por que ninguém faz nada?

Começando a escrever essas linhas, fez-me lembrar de 2016. Ao acordar, a primeira notícia com que me deparo é o martírio do padre Jacques Hamel, ocorrido nesta manhã durante a celebração de uma Santa Missa na França. Como era de se esperar, o ocorrido não foi veiculado integralmente na grande mídia e não vi “defensores” dos Direitos Humanos lançarem uma campanha “Je suis Père Hamel”. Porém, me detive num fenômeno tão sentimentalista quanto.

Como é de se esperar as pessoas reagiram a um ataque terrorista. Como foi um ataque contra um grupo cristão, os cristãos – é evidente que não foram todos, sequer foi a maior parte – reagiram: tomaram em armas e foram combater a invasão horizontal dos bárbaros na Europa. Mentira, claro que não fizeram isso. Então eles teriam iniciado uma campanha mundial de oração pelos cristãos perseguidos? Também não. Talvez formaram um grupo de pregação e foram para onde a Igreja é perseguida evangelizar? Definitivamente não.

Numa enorme onda de indignação e zelo, uma parte dos católicos se juntou para, corajosamente… isso mesmo, trocar a foto do facebook, compartilhar o nome do sacerdote mártir e – pasmem – criticar as ações do Santo Padre – sim, aparentemente o Vigário de Cristo estar na Jornada Mundial da Juventude, e a própria Jornada são atitudes “anticatólicas”. Nas redes sociais se encerrou todo o ímpeto daqueles que dizem se importar com a perseguição sofrida pela Igreja e com a decadência da Europa.

Meu intuito aqui é mostrar, sobretudo, como o sentimentalismo tóxico impregnou as ações não só dos grupos católicos, mas também dos grupos políticos, e como isso desmobiliza as ações boas e facilita a invasão bárbara sofrida pelo Ocidente.

Numa conversa com grandes amigos, clara e justamente indignados com as atrocidades cometidas pelos maometanos, foi dito que indignação não adianta, “Ok, mas ser indiferente também não!”, respondeu um deles. De fato, ele está certo. A proposta de Cristo não é a indiferença – ou o pacifismo. Diante daqueles que entram em nossas igrejas, estupram nossas mulheres e destroem nossa cultura, dizer que o “Islã é religião de paz” e ignorar os fatos não só é contraproducente como também é apoiar o genocídio que ocorre debaixo de nossos narizes, ou simples ignorância.

Como eu sempre procuro deixar claro em minhas falas, senão num extremo nem no outro, onde está a virtude? Qual posição tomar? Creio que a atitude de um cristão autêntico deve ser a mesma postura de Cristo (parecida com a de Sócrates no conteúdo, mas um pouco diferente quanto ao fim) e dos mártires: devemos ser corajosos.

Ora, que é, pois, a coragem que devemos pôr em prática? O cardeal Robert Sarah, no livro Deus ou Nada, diz que não há necessidade de coragem para falar contra a Igreja, mas sim para aderir à Fé. A Fé “adulta” é aquela dos cristãos que morrem todos os dias na África, na Ásia e agora na Europa. É a fé de todos os mártires que seguiram a Cristo.

Diante de Pilatos, Cristo não “bateu de frente” com ele, não disse que o governador romano não tinha poder para prendê-lo, mas, ao contrário, confirmou o poder romano sobre sua vida terrena. “O meu Reino não é deste mundo”, disse Nosso Senhor, “não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado”. Eis a Coragem da Verdade! Eis a coragem que não foge frente a injustiça mas permanece firme e convicto frente ao poder do mundo, das armas!

O problema da era das redes sociais é justamente esse: as pessoas demonstram mas não direcionam suas forças ao que é efetivo.

Na obra “O Diálogo das Carmelitas”, Georges Bernanos descreve uma conversa entre o sacerdote do convento e a Irmã Branca da Agonia de Cristo[1]: “Eles te chamam de fora da lei”, diz a jovem freira ao sacerdote que responde, “o que a lei garante? Os nossos bens e nossa vida. Ora, aos bens nós já renunciamos e nossa vida está nas mãos de Deus. Eles não podem fazer mais nada”. Eis a coragem cristã.

Em meu último texto, contei a história do bem-aventurado Jose Luis Sanchez, mártir cristero. A postura daquele garoto diante dos algozes é uma clara manifestação da virtude da Fortaleza. Não a virtude humana, mas a virtude do Espírito Santo. “Entre seus atos de coragem, disse: ‘Por que me oferecem liberdade? Sou seu inimigo! Fuzilem-me! Viva Cristo Rei!’”.

Que quero dizer com esses exemplos? Devemos ficar inertes vendo nossos irmãos morrem? Não, jamais! Devemos TRABALHAR contra os inimigos de Cristo, por Deus, pela Igreja! Mas porque não o fazemos? Porque o sentimentalismo nos intoxicou. Vivemos numa época de aparências, onde as pessoas querem mostrar seu sentimento. Mostrar e nada mais. Mas esta não é a postura de Cristo. Ele não ficou inerte, muito menos ficou se fazendo de vítima.

Um grande amigo fez uma observação interessante sobre a Via Crucis. No momento em que Cristo encontra com as mulheres que choram e Nosso Senhor lhes diz: “Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. […]Porque, se eles fazem isto ao lenho verde, que acontecerá ao seco?” (Lc 23, 28.31). A tristeza das mulheres era falsa? Parece que não, mas sua demonstração era exagerada, elas não enfrentaram a situação como o Cristo, com coragem.

O problema da era das redes sociais é justamente esse: as pessoas demonstram – geralmente para mostrarem uma falsa disposição interior – mas não direcionam suas forças ao que é efetivo.

No livro “Podres de Mimados”, Theodore Dalrymple dedica um capítulo inteiro à manifestação pública do sentimentalismo citando o caso da menina Madeleine. Filha de pais milionários ela desapareceu durante uma viagem da família. O que os pais fizeram além de chamar a atenção da mídia mundial? Isso mesmo, um website que vendia pulseiras com o nome da criança. Agora, como se encontra uma criança desaparecida comprando uma pulseira com seu nome? Isso mesmo, da mesma forma que se para os atentados contra os cristãos mudando a foto do facebook e demonstrando sua indignação.

Por isso o sentimentalismo nunca é efetivo e, na verdade, atrapalha. A pessoa publica sua indignação na timeline e só se recorda no ano seguinte porque essa é uma ferramenta do facebook. Como bem disse o Pe. Jose Eduardo – a quem peço desculpas por copiar descaradamente – “até nos chocamos num primeiro instante, mas logo depois nos tranquilizamos e voltamos comodamente à vidinha. Vejam como o humanismo nos desumanizou!”.

O que nos é efetivo aqui, na Terra de Santa Cruz? A perseguição que sofremos aqui ainda não é – e com a Graça de Deus, por intermédio da Santa Virgem Aparecida, nunca será – física, então devemos usar os meios de que dispomos para “alargar cá em baixo as fronteiras do Reino de Deus”[2]. Como? No trabalho ordinário, na oração, no jejum, na Santa Missa, sendo santos, vivendo cristãmente, sem exageros ideológicos, nunca desprezando um infiel – seja ele islâmico, protestante, etc. – mas trabalhando por sua conversão.

E o que fazer quando somos atacados? Se um muçulmano vier me atacar porque sou cristão? Defenda-se. Nunca esqueçamos que existe uma guerra justa. Reitero o dito acima: o cristianismo não é pacifista. Coragem e Prudência sempre! Nunca na intenção de se auto-afirmar, mas tudo ad majorem Dei gloriam!

 

Igor Andrade – Assoc. São Próspero

[1] Tragicamente, não tenho o livro em mãos, então ponho aqui as palavras que me recordo.
[2] Regra da Milícia de Santa Maria.

O fiel católico / Portal Kairós

A mensagem do Papa Francisco para a II Dia Mundial dos Pobres

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O II DIA MUNDIAL DOS POBRES

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (18 DE NOVEMBRO DE 2018)

«Este pobre clama e o Senhor o escuta»

 

Baixe a mensagem do Papa Francisco para a II Dia Mundial dos Pobres:

 

1. «Este pobre clama e o Senhor o escuta» (Sal 34, 7). Façamos também nossas estas palavras do Salmista, quando nos vemos confrontados com as mais variadas condições de sofrimento e marginalização em que vivem tantos irmãos e irmãs, que nos habituamos a designar com o termo genérico de «pobres». O autor de tais palavras não é alheio a esta condição; antes pelo contrário, experimenta diretamente a pobreza e, todavia, transforma-a num cântico de louvor e agradecimento ao Senhor. Hoje, este Salmo permite-nos também a nós, rodeados por tantas formas de pobreza, compreender quem são os verdadeiros pobres para os quais somos chamados a dirigir o olhar a fim de escutar o seu clamor e reconhecer as suas necessidades.

Nele se diz, antes de mais nada, que o Senhor escuta os pobres que clamam por Ele e é bom para quantos, de coração dilacerado pela tristeza, a solidão e a exclusão, n’Ele procuram refúgio. Escuta todos os que são espezinhados na sua dignidade e, apesar disso, têm a força de levantar o olhar para o Alto a fim de receber luz e conforto. Escuta os que se veem perseguidos em nome duma falsa justiça, oprimidos por políticas indignas deste nome e intimidados pela violência; e contudo sabem que têm em Deus o seu Salvador. O primeiro elemento que sobressai nesta oração é o sentimento de abandono e confiança num Pai que escuta e acolhe. Sintonizados com estas palavras, podemos compreender mais profundamente aquilo que Jesus proclamou com a bem-aventurança «felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5, 3).

Entretanto devido ao caráter único desta experiência, sob muitos aspetos imerecida e impossível de se expressar plenamente, sente-se o desejo de a comunicar a outros, a começar pelos que são – como o Salmista – pobres, rejeitados e marginalizados. De facto, ninguém se pode sentir excluído do amor do Pai, sobretudo num mundo onde frequentemente se eleva a riqueza ao nível de primeiro objetivo e faz com que as pessoas se fechem em si mesmas.

2. O Salmo carateriza a atitude do pobre e a sua relação com Deus, por meio de três verbos. O primeiro: «clamar». A condição de pobreza não se esgota numa palavra, mas torna-se um brado que atravessa os céus e chega a Deus. Que exprime o brado dos pobres senão o seu sofrimento e solidão, a sua desilusão e esperança? Podemos interrogar-nos: como é possível que este brado, que sobe à presença de Deus, não consiga chegar aos nossos ouvidos e nos deixe indiferentes e impassíveis? Num Dia como este, somos chamados a fazer um sério exame de consciência para compreender se somos verdadeiramente capazes de escutar os pobres.

Necessitamos da escuta silenciosa para reconhecer a sua voz. Se nós falarmos demasiado, não conseguiremos escutá-los a eles. Muitas vezes, temo que tantas iniciativas, apesar de meritórias e necessárias, visem mais comprazer-nos a nós mesmos do que acolher verdadeiramente o clamor do pobre. Se assim for, na hora em que os pobres fazem ouvir o seu brado, a reação não é coerente, não é capaz de sintonizar com a condição deles. Vive-se tão encurralado numa cultura do indivíduo obrigado a olhar-se ao espelho e a cuidar exageradamente de si mesmo, que se considera suficiente um gesto de altruísmo para ficar satisfeito, sem se comprometer diretamente.

3. Um segundo verbo é «responder». O Salmista diz que o Senhor não só escuta o clamor do pobre, mas também responde. A sua resposta – como atesta toda a história da salvação – é uma intervenção cheia de amor na condição do pobre. Foi assim, quando Abraão expressara a Deus o seu desejo de possuir uma descendência, apesar de ele e a esposa Sara, já idosos, não terem filhos (cf.Gn 15, 1-6). O mesmo aconteceu quando Moisés, do fogo duma sarça que ardia sem se consumir, recebeu a revelação do nome divino e a missão de fazer sair o povo do Egito (cf. Ex 3, 1-15). E esta resposta confirmou-se ao longo de todo o caminho do povo pelo deserto: tanto quando sentia os apertos da fome e da sede (cf. Ex 16, 1-16; 17, 1-7), como quando caía na miséria pior, ou seja, na infidelidade à aliança e na idolatria (cf. Ex 32, 1-14).

A resposta de Deus ao pobre é sempre uma intervenção salvadora para cuidar das feridas da alma e do corpo, repor a justiça e ajudar a retomar a vida com dignidade. A resposta de Deus é também um apelo para que toda a pessoa que acredita n’Ele possa, dentro dos limites humanos, fazer o mesmo. O Dia Mundial dos Pobres pretende ser uma pequena resposta, dirigida pela Igreja inteira dispersa por todo o mundo, aos pobres de todo o género e de todo o lugar a fim de não pensarem que o seu clamor caíra em saco roto. Provavelmente, é como uma gota de água no deserto da pobreza; e contudo pode ser um sinal de solidariedade para quantos passam necessidade a fim de sentirem a presença ativa dum irmão ou duma irmã. Não é de um ato de delegação que os pobres precisam, mas do envolvimento pessoal de quantos escutam o seu brado. A solicitude dos crentes não pode limitar-se a uma forma de assistência – embora necessária e providencial num primeiro momento –, mas requer aquela «atenção amiga» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 199) que aprecia o outro como pessoa e procura o seu bem.

Leia mais

Cáritas do Brasil divulga Cartilha para Jornada Mundial dos Pobres 2018

A Cáritas Brasileira libera a Cartilha para Jornada Mundial dos Pobres – Semana da Solidariedade. O tema escolhido este ano pelo Papa Francisco para a II Jornada Mundial dos Pobres (JMP) traz a inspiração do Salmo 34: “Este pobre grita e o Senhor o escuta” (Sl 34,7). Na mensagem divulgada para mobilizar esta jornada, o Pontífice diz: “As palavras do salmista tornam-se também as nossas no momento em que somos chamados a encontrar-nos com as diversas condições de sofrimento e marginalização em que vivem tantos irmãos e irmãs nossos que estamos habituados a designar com o termo genérico de ‘pobres’”.

Tema:
“Este pobre grita e o Senhor o escuta” (Sl 34,7)

Um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Cáritas Brasileira é a responsável pela animação da Jornada Mundial dos Pobres – Semana da Solidariedade. Em 2018, a animação foi reforçada também com a contribuição da equipe da Campanha da Fraternidade, da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato, do Conselho Nacional do Laicato e da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Social Transformadora.

A campanha convida a todas as pessoas, grupos, comunidades, instituições e pessoas de boa vontade para que participem da Jornada Mundial dos Pobres – Semana da Solidariedade organizando momentos de encontros fraternos, celebrações ou mobilizações públicas entre os dias 11 e 18 de novembro de 2018. O material já foi enviado às dioceses de todo Brasil. A ideia é que as Igrejas locais, comunidades, pastorais, ruas e locais onde se encontram as pessoas empobrecidas, organizem gestos concretos de solidariedade e acolhida com as pessoas em situação de vulnerabilidades extremas.

O subsídio elaborado para ajudar a mobilizar encontros e celebrações traz a síntese da carta do Papa Francisco; propostas de atividades mobilizadoras; e três círculos bíblicos com os verbos propostos pelo Papa — gritar, Responder e Lutar. O material está disponível para que os grupos possam dispor dos arquivos para divulgação e impressão, caso seja necessário.

Histórico

Em 2017, o Papa Francisco convocou católicos e pessoas de boa vontade para uma jornada de solidariedade e proximidade com as pessoas empobrecidas. A grande convocação trouxe como lema o imperativo: “Não amemos com palavras, mas com obras”. Desde então a Jornada Mundial dos Pobres entrou para o calendário anual das iniciativas da Igreja. A convocação para a Jornada Mundial dos Pobres fez parte da agenda de ações mobilizadas no âmbito do encerramento do Ano Santo da Misericórdia, realizado em 2016-2017.

Baixe a Cartilha para Jornada Mundial dos Pobres 2018:

 

Cáritas / Portal Kairós