Campanha da Fraternidade 2017 – Artigos

A complexidade e desafios na evangelização da Amazônia

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Quanto mais um carisma dirigir o seu olhar para o coração do Evangelho, tanto mais eclesial será o seu exercício. (Papa Francisco)

A complexidade eclesial da Amazônia

Amazônia é um mundo complexo e, nela, a Igreja católica, uma presença complexa, não homogênea, porque as questões locais são muito diversificadas. Portanto, o nosso desafio é o nosso próprio desafio  eclesial amazônico.

O processo de evangelização na Amazônia gerou modelos eclesiais ao longo das fronteiras dos rios, marcadas pelos carismas dos religiosos e religiosas aos quais foram confiados a evangelização. Rio Negro aos carmelitas, jesuítas e depois aos salesianos; alto Solimões aos Capuchinhos e assim por diante. Estas presenças missionárias foram ao longo do tempo compactando uma religiosidade que, hoje, na sociedade liquida, se encontra na encruzilhada, não digo uma crise, mas de alguns fenômenos de transição que influenciam no perfil dos agentes da evangelização:

– Grande sincretismo religioso;

– O avanço do protestantismo de linha neopentecostal no catolicismo;

– O recuo da Igreja nas periferias e uma presença de conservação nos centros urbanos.

Esta transição ou sutil divisão influencia muitíssimo na compreensão da identidade do cristão leigo e do modelo de Igreja que queremos, consequentemente, no projeto de missão. Outro elemento de transição é a nomeação de bispos de outras congregações ou diocesanos para estas prelazias e dioceses na Amazônia; rompe-se assim uma hegemonia. Portanto, bispos, religiosos e clero precisam manter os critérios das mutuas relações para viabilizar a ação conjunta, mantendo o princípio de Calcedônia, ou seja, sem misturar e sem separar; portanto, respeito, credibilidade e foco na evangelização.

A influência do CV II

Até o CV II, o leigo era aquele que não era: não era ordenado, não era missionário, não era religioso consagrado, não era líder comunitário. Após o CV, com o advento do modelo POVO DE DEUS, começamos a superar a ideia do não leigo para o cristão leigo: o cristão leigo é um discípulo missionário de Jesus Cristo, cuja missão está radicada no Batismo, pelo qual todo e qualquer cristão é SACERDOTE, PROFETA E REI (LG, 33,2; CNBB, cristãos leigos e leigas, doc. 105, n. 111.124.125). Papa Francisco, na carta ao cardeal Marc Oullet sobre os leigos, dizia isto: “Nossa primeira e fundamental consagração afunda suas raízes no nosso Batismo. Ninguém foi batizado sacerdote nem bispo.

A Igreja não é uma elite de sacerdotes, consagrados, mas formamos o Povo de Deus” (LG, 9) Então, o clericalismo forma uma sutil divisão clero x leigos, religiosas x leigas, padres x diáconos, leigos x padres e diáconos, tende ou, à luz do CV, deveria ter sido superado, mas o ranço desta tensão ainda é muito presente. Diz ainda o papa “O clericalismo, longe de dar impulso aos diversos contributos e propostas [inclusive a ministerialidade, apaga pouco a pouco o fogo profético… ele esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o Povo de Deus e não a poucos iluminados” (LG, 9-14).

Os dons são do mesmo Espírito

Portanto, a dialética está dentro de nós, de nossa mentalidade, daí a necessária e urgente CONVERSÃO PASTORAL (João Paulo II, A Igreja na América, n. 26-29), ou seja a conversão é, sobretudo “assumir o estilo de Jesus Cristo: simplicidade, pobreza, disponibilidade, renuncia à vantagens, é o modo do Bom Pastor” (n.28). Não haverá, portanto,  abertura ao Espírito Santo, que suscita os ministérios, sem conversão, pois o ES não se rege pelo Direito Canônico; e, é o ES que cria e recria os ministérios segundo as necessidades do Povo de Deus. É ele que fala a Igreja (Ap, 2,29; CNBB, cristãos leigos e leigas, doc. 105, n. 151.152).

Tenhamos presente, entretanto, que todo ministério é para o serviço à missão e não para um bem pessoal. Requer humildade, abnegação e  doação de si mesmo. Quem assume como privilégio e honra um ministério não entendeu o serviço ao Reino definitivo. Ministério eclesial não é poder, mas capacidade de amar mais ao povo. Este critério serve tanto para os ordenados como a não ordenados. Aplica-se bem a expressão do papa Francisco também aos leigos e leigas: “renunciemos a psicologia de príncipes” ou numa fala aos núncios (representante diplomático permanente da Santa Sé) apostólicos: “quando alguém é eleito ao episcopado deve entender que Deus pousou o olhar sobre ele”, dito aos cristãos leigos e leigas, diria: quando um leigo ou leiga assume um ministério deve estar consciente de que Deus pousou o olhar sobre ele.

Precisamos, portanto, ter aquela sensibilidade mística de Santa Teresa de Calcutá, quando sentiu no seu interior o apelo de Jesus Cristo: Tenho sede. Nosso povo tem sede da Palavra, da comunhão, da organização, da evangelização, de crescer, ser nutrido. Não podemos, por conseguinte, imaginar que somente nós clero teremos as respostas para todos os desafios da Amazônia, pois nós somos o desafio. Precisamos sim de uma Igreja na Amazônia que siga um programa de evangelização e não um quadro doutrinário (EG, 104).

Faz-se urgente duas atitudes que podem gerar ação, segundo Francisco: discernimento e gradualidade. Eu me aproprio disto para a realidade dos ministérios eclesiais, pois, como bem dizia Ulisses Guimarães: “sem coragem, todos os valores sucumbem”, precisamos ter coragem profética para discernir, pois “não devemos ter medo de mudar aquilo que antes foi necessário como norma, mas hoje é anacrônico” (EG, 43); não esperar do magistério todas as orientações e soluções, mas busca-las à luz dos contextos (AL, 200), e o discernir supõe debate, análise a partir da vida, deixar-se guiar pelo ES, decisão e ação (AL, 293). A gradualidade encontramos numa sensível tipologia cristã atual:

– Pastoral ordinária: fieis que conservam a fé nas comunidades e entre eles os jovens (EG, 14): precisam de ministros que formem para a missionariedade (sair);

– Pastoral ocasional: batizados que não vivem em coerência com o batismo recebidos e entre eles os jovens (EG 14): precisam de ministros acolhedores que tenham a capacidade de atrair (ver);

– Pastoral de fronteira: pessoas que ainda não conhecem Jesus Cristo e entre eles os jovens (EG, 14): precisam de ministros que atuem nos “novos areópagos e novas periferias – novas tecnologias (chamar);

– Piedade popular e catequese: é urgente valorizar a piedade popular com os elementos do Evangelho (EG, 122ss), sobretudo como meio de formação continuada dos jovens e adultos: precisamos de ministros que saibam valorizar a PP e evangeliza-la sem perder suas matrizes culturais;

– Metodologia evangelizadora: pregação (EG, 135. 145), escuta (EG, 154), iniciação cristã (EG, 163ss), ação social (EG, 17ss), linguagens juvenis: precisam de ministros que desenvolvam a comunicação direta;

A diversidade de dons

Com esses dois elementos é possível atender aquilo que é de direito do Povo de Deus nos centros urbanos e nos centros rurais, sem esperar, diz Francisco “diretrizes gerais”, mas locais. Abre-se, então, um leque de possíveis ministérios que passo a elencar inspirado em Atos 12,6ss: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo”.

– Ministério do aconselhamento pastoral
– Ministério da penitencia e reconciliação ordinária
– Ministério das Exéquias
– Ministério da pregação que alimenta a fé
– Ministério da espiritualidade cristã
– Ministério das culturas juvenis
– Ministério da política
– Ministério da caridade ativa
– Ministério da Piedade Popular
– Ministério da dor e da cura
– Ministério de formador de lideranças
– Ministério de itinerância
– Ministério diaconal com maior liberdade de ação, mais evangelizadores que burocráticos

Pe. João da Silva Mendonça Filho, sdb
II Encontro da Igreja na Amazônia
Belém do Pará, 15 a 17 de novembro de 2016

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Campanha da Fraternidade 2017: Obrigado, irmã água

Pe. Nicolau João Bakker, SVD

Introdução:

A Campanha da Fraternidade de 2017, mais uma vez, nos convida a entender melhor, e tratar com mais carinho, a natureza que nos envolve. Apresentando como tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da Vida”, ela pede nossa atenção para os diferentes biomas brasileiros e nos alerta: os biomas têm a ver com a “Vida” que, como cristãos e cristãs, somos chamados/as a defender. A questão é séria. Morrendo os biomas, morreremos com eles.

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Mas, perguntemos antes, quais são os biomas brasileiros? Tradicionalmente são seis: a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica e os Pampas do Sul. Ultimamente acrescenta-se a eles a Zona Costeira e Marinha. O que estes biomas têm a nos dizer? É provável que a Revista Vida Pastoral, nos primeiros meses de 2017, publique um artigo nosso que mostrará em detalhes “a Vida como ela é”, e como os biomas expressam em escala maior o que a Vida é em escala menor. Por onde olharmos para a “Vida”, desde a mais pequenina célula de qualquer ser vivente até o grande bioma, sempre encontraremos uma “teia partilhada”, feita inteiramente de “relações colaborativas”. Uma teia onde, como diz o papa Francisco, “tudo está interligado”. Também as sociedades humanas são expressões desta “Vida”. Ou, melhor, deveriam ser a expressão dela. Apenas o ser humano, com sua consciência, pode passar por cima da “fraternidade biológica” e, rompendo as relações colaborativas, faltar com a “fraternidade cristã”.icone_cf2017

Neste artigo não trataremos da “Vida” de forma genérica. Vamos olhar para o elemento da natureza que mais a sustenta: a água. Se a Campanha da Fraternidade nos pede para atuar “em defesa da Vida”, é antes de tudo da água que devemos cuidar. A Vida, como veremos, tem sua origem na água e dela depende. Iniciaremos nossa “meditação” olhando para a água como a fonte da “Vida”. Em seguida veremos o que pode ser feito para cuidar dela de forma mais colaborativa.

I – A água: fonte da “Vida”

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CF 2017: Uma nova concepção de vida fraterna

Nicolau João Bakker, SVD

Introdução:

Surpreendeu-me o tema da CF de 2017: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida“. O que a fraternidade tem a ver com os biomas brasileiros? Tradicionalmente nossos biomas são seis: a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal, e os Pampas do Sul. Ultimamente se acrescenta a eles a Zona Costeira e Marinha. Não é um pouco artificial ligar estes biomas ao conceito de fraternidade?

icone_cf2017_bioma A fim de encontrar uma resposta mergulhei na minha infância. Lembrei-me do lugar onde nasci: quase dois metros abaixo do nível do mar, num dos famosos “pôlderes” holandeses, uma grande e rica extensão de terra cercada pelos não menos famosos “diques” da Holanda. Tudo fruto de uma luta mais do que secular contra a temível bravura do mar. Chamavam-nos de “frísios do Oeste”, isto em oposição aos frísios “de verdade” que moravam do outro lado de um grande braço do mar, a 25 km. de distância. Lá se falava uma outra língua que nem sequer entendia. Aliás, mesmo do nosso lado, em cada aldeia, de 3 em 3 km, o linguajar do povo – e também o modo de brincar, caçoar, torcer e opinar – era um pouco diferente. Em seu conjunto, nós, frísios do Oeste, constituíamos claramente uma “tribo” bem diferente das demais tribos holandesas. Depois de adulto me dei conta que até na religião éramos diferentes. Tínhamos, sem dúvida, um modo bem próprio de encarar as nossas obrigações religiosas.

Quando minha família, na década de 1950, emigrou para o Brasil, estabelecendo-se numa pequena cooperativa agrícola na área metropolitana de Campinas (Holambra), eu, com 21 anos de idade, enfrentei um mundo totalmente novo. Juntamente com meu pai e meus três irmãos, era preciso aprender a tirar o sustento para uma família de 11, não mais a partir de um único alqueire do bioma pôlder, mas agora a partir de um bioma inteiramente diferente. Os muitos cupinzeiros esparramados pelo velho pasto à nossa frente não deixavam dúvida. Estávamos diante de um “latifúndio” de 14 alqueires de cerrado paulista. Trabalhando na roça com paulistas, mineiros e cearenses, goianos, baianos e paranaenses, fui logo percebendo que cada um/a trazia do seu bioma de origem – evidentemente com variedades regionais – um mundo próprio, não apenas no sotaque, nos costumes e nas tradições, mas também em todo um jeito particular de encarar a vida.

CF 2017: Uma nova concepção de vida fraterna

Animais dos biomas brasileiros, ilustração por Digerson Araújo

De fato, mais do que nosso estado ou região de origem, é o bioma que define o viver, conviver e sobreviver do ser humano. A modernidade, com sua fortíssima tendência de criar o “homo globalis” – fruto de uma mídia homogeneizadora e um novo estilo de vida, urbano, escolarizado, e industrializado – tende a aniquilar o efeito bioma, mas não há como. Cada bioma é o resultado de forças cósmicas que mudam apenas a longuíssimo prazo e que ultrapassam em muito a capacidade humana de, de alguma forma, dominá-los. Muito antes de o ser humano destruir o bioma, o bioma irá destruir o ser humano. Em muitos sentidos o bioma “gera” o ser humano, dando-lhe sua característica própria, não apenas nas feições do corpo, mas também nas da alma. A não ser que algum imperialismo religioso a tenha modificado, em cada canto do planeta encontraremos uma população originária dirigindo ao mundo do além uma oração particular e muito própria.

O objetivo deste artigo é demonstrar que, das ciências da vida, surge uma nova concepção de “vida fraterna”. Se queremos realmente “defender a Vida”, como pede a Campanha da Fraternidade, vamos ter que “educar o nosso olhar” – como dizia Teilhard de Chardin (†1955) – e perceber que, de fato, somos irmãos e irmãs não apenas dos nossos semelhantes, os seres humanos, mas também, como já intuía São Francisco de Assis (†1226), de todos os demais seres vivos do planeta. Faremos isto, em primeiro lugar, observando “a Vida como ela é”. Em seguida veremos que também o bioma, como a própria “Vida”, é sempre uma “teia partilhada”. E, finalmente, tiraremos algumas conclusões pastorais “em defesa da Vida”.

I –  “A Vida como ela é”

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